Os filhos do condomínio

A gente não aguenta
mais tanta violência

A gente não suporta
mais tanta lorota

A gente não quer comunismo
A gente quer consumismo

Eu conheço bem essa gente

A gente que não descuida
a gente que mente

A gente que fatura
da gente que se ilude
e a gente que não sente…

Pois para a outra gente que fora do condomínio não se educa,
tem agente que prende.

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poesia para inocentes

quebrei a lua ontem pela manhã
e antes que me denunciasse a noite
colei pedacinho por pedacinho
botada lá no céu com cola tenaz e um fio de lã

são jorge até que não ficou mal de plástica
mas o que eu não gostava era daquela chuva branca
que escorria a noite inteira como neve morna

peguei minha escada de fininho
o dormilongo sol nem desconfiava
quando numa marretada só espatifava-a outra vez
agora em um milhão de cacos que contei um por um

a cola cessou de castigar
mas a noite não vivia
pelas ruas ninguém se beijava – nem de mentirinha

e dessa vez saltei o mais inventadamente que pude
para lançar todos aqueles milhões de cacos reluzentes
na fita dupla-face que tem lá em cima, no céu

os pontinhos reluzentes
não vou mentir – chamei de estrelas
até que fizeram seu papel

mas por mais que eu contasse
por mais que usasse os dedos das mãos e dos pés
não achava solução para aquela matemática
de noite menos lua igual saudade

peguei uma tesoura sem pontas
pedi ajuda para um adulto
desenhei de cabeça minha lua em giz de cera
numa cartolina bem grande

confesso que quis surpreender
e ali de improviso fiz alguma coisa
corri na ponta dos pés até o último andar

no fio de lã
a minha lua
batizei de nova

no café da manhã
o horário de ir pra escola

mas amanhã
faço quarenta e seis
e essa, a segunda que amei.

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canção para as estrelas

o sol que nasce e morre
esmagador no horizonte
a nossa fênix tão longe

a pesadíssima lua que fantasia
provoca e envaidece
e nos mostra sua cara cheia

e a gente que insiste em amar
todas as coisas

em querer capturar
aqueles momentos

um retrato dum passageiro
fotografia dos ventos

nenhum ventilador irá nos salvar
menos ainda luzes elétricas
– isso sem dizer dos pães, sem dizer do altar

aquele abraço mortal da terra
eu já não mais temo

daquele abraço mortal da terra
o que mais tenho
é pressa.

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San José

à beira da praia caminha
um olhar esperto
espreita o sol que escapa
o fim das ondas
lá no alto do Rio Paraná

a beira da praia caminha
sozinha sozinha
mas um olhar esperto
espreita a vida que passa
mansa, quase um nada

na beira da praia caminha
uma vaga sem nome
abandonada sei lá por quem
no Pacífico ou na Laguna Blanca
sei que na beira da praia morreu
aquela onda calminha
e de tudo aquilo meu peito se encheu.

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deusdois1000e15

deus é os dias melhores que virão
é o fim da tua preguiça
o amor que não viveste em vão

deus é a paz do mundo
é o bom cheiro da carniça
a salvação daquele teu cheque sem fundo

deus é o teu filho sem fome
é o dia em que teu marido não espanca
o sossego daquilo que te consome

deus é até aquela promessa de ligar amanhã
aquele teleatendimento que funciona
a tua vontade de trabalhar nessa manhã

deus é todas estas coisas maravilhosas
operando na tua tão humana esperança
ele é todas as coisas que sabemos mentirosas.

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meterônimo

é um tempo simples no passo-a-passo
pode ir esquecendo teus tercinados
meu heterônimo vai tirando e tornando a colocar
assim, sempre no quarto compasso.

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pas d’argent pour un roman à Paris

nunca esquecerei Paris
aquela torre maravilhosa
o museu do Código Da Vinci

nunca esquecerei do bonjour
e daquelas lojas caríssimas
na Rue du Faubourg Saint Honoré

nunca esquecerei daquele guia
guardado na estante para sempre
e das passagens da TAM que nunca comprei.

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