deserviço

o céu
enorme
é o mesmo
que ilumina
molha e venta
a minha e a tua
as nossas cabeças
lindo, infinito, imenso

desperdício.

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separacão

para um
exílio bom era aquele das estrelas

para o outro
bom eram aquelas estrelas da mídia

o primeiro se exilou fazendo poesia
feliz
de verdade

o segundo nem isso podia
tinha raiva e malícia
descompassos de sua desastrosa vaidade.

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o vulto

vovó sempre sabia
tinha visto
viu sua mãe, sua tia
o vulto vinha e passava
no escuro ou no claro
arrepiava a espinha

eu jurava nunca ter visto
sendo honesto ainda duvido
mas é que alguém sempre sussurra
psiu, psiu, menino menino
e eu finjo que não ouço
vou para outro lado, passo batido

calafrios e arrepios
não vou dizer que tenho tido
mas à noite, quando sozinho
uma mão negra tapa um dos meus olhos
às vezes um ouvido
num zumbido de tv baixinho

é o vulto dos vivos
os corpos que um dia habitamos
e deixamos para trás
alguns – é verdade – nem provamos
como enjoados a comprar roupas novas
– não quero mais

aparecem apenas à noite
pelo anúncio dos amigos atônitos
querendo saber se eu não vi
indignados com esse exílio
e furiosos quando respondo, satisfeito
– não vi, não sei de nada.

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desvoto

nas urnas de deus
receptáculo de preces
depositamos nossos votos
esperando um sinal do senhor

não faz muito depositamos
uma vez mais
nossas preces
os votos mais sinceros

mas qualquer pregador
sabe que de nada valem
diante da desvontade de deus

e para os que esperavam
o precioso sinal
ele veio em maio,
estampado no jornal:

em nome do pai
do filho
e do espírito santo

se deus está por eles
silenciemos as rezas:
juntos estaremos por nós.

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heurói

a beleza é mesmo contraditória

é olhar para o alto
e saber-se grão

ver que diante da morada das estrelas
toda mitologia estremece

mas a beleza é mesmo contraditória

um olhar desesperado para frente
que contempla o futuro
numa lápide

deus não responde
tampouco o infinito
demonstra interesse

ainda assim, a beleza é contraditória

basta uma paixão
um veneno
qualquer

e nos cremos invencíveis
soldados imortais
deste presente camaleônico.

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zoodíaco

nosso mapa astral
– loteria –
mandaram imprimir

nosso ascendente
descende das estrelas

mas apenas as cadentes

espelhos sórdidos
da gente

de longe tão bonitos
mas basta uma lupa, uma lente
e nos revelamos meteoritos

sem brilho, sem linhagem
arremessados ao léu infinito
a maioria sem bagagem

as galáxias todas
em cirandas de chacota
forçam as vistas e não enxergam

que o nosso signo maior
é tão inequívoco
quanto a luz:

daqui de longe
não somos nada.

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cadeira à sombra

ela
já nos quase cinquenta
o rapaz
nem dezessete tinha

mas puxava peso
ele
na academia

ela
daquela baixeza imposta
como um fratura
exposta

ele
chegava e dava bom dia
minha senhora

bom dia
meu menino
ela dizia

nos braços fortes
ele
levantava-a
ela
agarrada às costas
largas que só

enfiava as unhas forte no rapaz
dizia que era medo
era nada

se assanhava toda
com a pegada daquele homem
ainda menino

às vezes até fechava
os olhos
serrava os dentes
desejava

seu momento de luxúria
de apenas alguns
instantes

e pensar que teve de criar menina
coisa de dezesseis anos
para ter aquele prazer

todas as manhãs
ela fazia as pazes
com deus

o rapaz moço bem cuidado
pegava ela no colo
descia as escadas
de sorriso envergonhado
carregando a senhora
como se fosse moça sua

chegava no alpendre
e botava-a na cadeira
de rodas

ela com sorriso
na cara
ele nem desconfiava

era namorado da filha
da dona
da cadeira de rodas

a senhora nada de mal fazia
de todas aquelas manhãs sofridas
só queria um bom dia
com cheiro de suor
essência debaixo das unhas

ninguém nunca soube dessa sua alegria
acreditar mesmo não iam
que aquela quentura
sentida lá quando mocinha
voltava pra borrar as bochechas
numa só descida de escadaria

a coitadinha da cadeira de rodas
– como a chamavam as vizinhas –
apreciava tudo aquilo
que segredaria

às vezes tomava uma pitú
e ficava com a língua
solta-soltinha
queria dar ensinamento
dizia:

– dessa vida a gente não desconfia de nada não
nossa sombra arquiva tanta, mas tanta miudeza
que esquecemos dos segredos todos que existem
até debaixo do manto sagrado de Maria.

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