aparentemente

todos estamos presos
na jaula das aparências
e o segredo da sobrevivência
nunca foi mostrar de menos

o segredo é ser caleidoscópio
porque o mistério
no cu dos outros
é veneno.

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breve história

já explorei o espaço
contemplei planetas e astros
mareei os olhos por estrelas cadentes
tão falsas quanto nossos maiores mitos

já falei com deus
em tom de desafio
mas ele fugiu da briga
na hora do vamovê
não deu um pio.

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novíssimo testamento [open beta]

lá se vai mais um dia ruim
as flores na janela não dão a mínima
mas estão sempre vistosas
réplicas fiéis em queima de estoque

alguém viu raminhos brotando
na boca do esgoto que sai do escritório
misteriosa essa nossa ciência:

ver que a vida insiste nos caminhos mais pestilentos
e em nossas selfies de esfinge

todos os enigmas que carregamos
nunca tocarão em uma única gota de nosso sangue
findarão tão insolúveis quanto nossa memória

amanhã diremos outra vez
lá se vai mais um dia ruim
tanto faz se com desdém ou esperança
a história não se repete, mas também não poupa ninguém

nesses tempos de multidão
que amemos ao próximo
mas cada um que cuide do seu

deus paira tão alto
que é rarefeito
não dá pra todo mundo
você que passe sem.

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monólouco

– são caminhos
– mas há quem discorde
– concordo
– então aceite
– mesmo assim é um disparate
– sem dúvida
– quem mais deixaste?
– ninguém, apenas fiquei
– e essa multidão?
– já não conheço ninguém
– ouvi que ontem sumiu mais alguém
– mas eu sei lá o que vou dizer
– a quem?
– a mim
– e a quem mais interessa?
– ninguém.

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deserviço

o céu
enorme
é o mesmo
que ilumina
molha e venta
a minha e a tua
as nossas cabeças
lindo, infinito, imenso

desperdício.

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separacão

para um
exílio bom era aquele das estrelas

para o outro
bom eram aquelas estrelas da mídia

o primeiro se exilou fazendo poesia
feliz
de verdade

o segundo nem isso podia
tinha raiva e malícia
descompassos de sua desastrosa vaidade.

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o vulto

vovó sempre sabia
tinha visto
viu sua mãe, sua tia
o vulto vinha e passava
no escuro ou no claro
arrepiava a espinha

eu jurava nunca ter visto
sendo honesto ainda duvido
mas é que alguém sempre sussurra
psiu, psiu, menino menino
e eu finjo que não ouço
vou para outro lado, passo batido

calafrios e arrepios
não vou dizer que tenho tido
mas à noite, quando sozinho
uma mão negra tapa um dos meus olhos
às vezes um ouvido
num zumbido de tv baixinho

é o vulto dos vivos
os corpos que um dia habitamos
e deixamos para trás
alguns – é verdade – nem provamos
como enjoados a comprar roupas novas
– não quero mais

aparecem apenas à noite
pelo anúncio dos amigos atônitos
querendo saber se eu não vi
indignados com esse exílio
e furiosos quando respondo, satisfeito
– não vi, não sei de nada.

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