promessas ao mar

tem promessas que a gente faz
como a pedra fez a deus
de nunca caminhar
não sair do lugar

tem promessas que a gente faz
que são como areia no vento
criança que joga a rocha
amputada no mar

tem promessas que a gente faz
que a gente nem devia saber
porque é divida comprida
sem ter a quem pagar

as promessas que te ouvi dizer
assim como o sabe-tudo deus
via numa imagem plena
premonição talvez

das promessas que te ouvi dizer
via todas como monte de pedras
prontas para serem atiradas
por mãos de unhas sujas

estas promessas que te ouvi dizer
tinham destino no meu sangue
como uma maldita infecção

mas

destas promessas tuas
nenhuma foi tão ingênua
destas como a das pedras

mas como a deus eu nada prometi
como a ninguém neguei meu caminhar
que o sal do mar encontre na areia pesada
o mesmo saber que encontrei em cada uma das tuas pedradas.

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fim

deixei essa planta crescer
descuidei de seus galhos
as raízes rachando o piso
suas folhas balançar como brincos

descuido meu, deixei passar
tem quem diga que é capricho
te fotografar assim diante do sol
vê-lo morrer e você ainda dormindo

até os pronomes perderam sentido
tu e você, usted já não faz muito

a situação é que essa planta rompeu o vaso
quebrou o chão
secou a água do prédio
deu reunião com o síndico

mas ainda não floriu
nenhum cheiro de estação
seja ela qual for
e agora aí, plantada e contorcida

escapando dos fios
das cagadas de passarinho
tão destroçada quanto aquele ladrilho
a planta do pé que não andou um centímetro

se despede num grito feio, comprido
rrram-rramramram-rraaaaaam
fica a seiva grudenta, nojenta, na ferramenta
e um buraco desse tamanho no teu chão.

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poema duma vida

as chances nunca sabemos quais são
chances de calar
de falar
saber

joguei dados esta noite
olhei para o céu
arrisquei

pedi ao vazio uma resposta
um sussurro que fosse
uma pisada na bosta
um grito de mulher

do nada me veio um sol na cara
um horizonte febril
cromaqui meu

era a única resposta que eu teria ali:
nada, nenhuma palavra de deus
uma mentira que fosse
só não respondeu

eu nem ia pedir muito dessa vez
apenas um nada de informação
– senhor, onde é que fica?

e bastava ter um mínimo de educação
para dizer: – meu filho, nessa mão
vire à direita, veja uma ponte
lá estará a rua sem saída

que eu iria e ali sem delongas
sem precisar olhar os mapas
astrológicos, fantasia

eu reto iria morrer no rio, na praia
engoliria todas as paredes
da rua com ponto final
só queria um sinal

mas sem querer fechei o cruzamento
mil desculpas, seu guarda
já vou andando

quantas esquinas, quantos becos
seria melhor a mata fechada
todas suas veredas
que desconheço

deus meu responda por favor
é muita falta de educação
deixar alguém de ar

onde é que fica, meu deus,
onde é que é a saída?

grita, indica, xinga!

só não cala porque a Mãe ensina
que quem cala consente
e num desses faróis
o senhor tira

a vida – porém não a tua
que nada aqui é teu –
mas a da gente.

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cançãozinha dos ventos

as coisas me chegam pelo vento
não importa se triste
se úmido, abafado ou calorento

chegam por aí sem pedir licença
e como a fumaça do teu cigarro
agarram forte nas espaldas feito prensa

só pelo cheiro
– um desses que ele carrega –
sei a data do teu sumiço
a estação testemunha do teu nascimento

o teu hálito quando sorri
o batom forte dos teus lábios
o teu shampoo mais caro

tudo isso eu sei
porque me traz o vento

talvez o mesmo que te trouxe
ou que seja outro o lazarento

ainda assim
quando miro esse mar azul
revolto na cova dos teus olhos

fico sem saber de onde vem
esse vento frio impiedoso
que de arrepiar já torna
o meu peito em rumoroso.

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o bonde dos destruídos

o bonde dos destruídos
daqueles desaprendizes
de todos nossos sofridos

sobe a ladeira a mesmos metros
do também lotado e feio
o lento bonde dos incompletos

os primeiros têm como sintomas
os choros e os choques

os segundos são fortes
padecem do mesmo ainda que em comas profundos

os primeiros são as mulheres deixadas
por suas mulheres, homens e filhos

enquanto os segundos são as mulheres
deixadas também por suas mulheres, homens e filhos

os primeiros são os pais desempregados
cheios de culpa e medo
enquanto os segundos também são estes aí dos primeiros

mas que não se engane quem lê
nestes versos incertos
algum descuido do pensamento

estes bondes são parecidos
irmãos gêmeos teria dito
mas ainda não são o mesmo

como os irmãos gêmeos
com sua cara parecida
cada um tem seu segredo

enquanto o segundo segue surdo sobre os trilhos
o primeiro grita de rasgar o coração
da dor que a consciência planta em desespero.

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[det]estado

não conheço a desolação
tampouco o ódio
e a calúnia

desconheço as mentiras
porque estão aí para isso
não sabê-las

a matéria da minha alma
quando é negra
barriguda, pesada

conheço num sono profundo
ou no latejar duma veia
essa que levo na testa

nesse estado tanto faz a moléstia
tudo é entregar-se ao fim
à desgraça de não fazer nada.

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longa e fugaz vida

eu já desejava muito
aquele leite
na gôndola fria
aquele leite
do supermercado

leite longa-vida
mesmo com data de validade
15 de Julho
conservar em local adequado

aquele leite enfeitiçado
levei para casa
com todos os cuidados

– será meu café da manhã
aquele leite
me deixava equivocado

duas horas depois
seco por um gole
foi-se ao chão meu protegido

o famoso leite derramado
que não adiantava mais chorar

sequei os olhos
humilhado no piso
de joelhos inchados

a barba a escorrer
o leite chupado frio
sem culpa, pudor

eu amei, desejei aquele leite
que nunca mais será retornado

a longa-vida do leite
afinal como a nossa
já se tinha acabado.

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