cançãozinha dos ventos

as coisas me chegam pelo vento
não importa se triste
se úmido, abafado ou calorento

chegam por aí sem pedir licença
e como a fumaça do teu cigarro
agarram forte nas espaldas feito prensa

só pelo cheiro
– um desses que ele carrega –
sei a data do teu sumiço
a estação testemunha do teu nascimento

o teu hálito quando sorri
o batom forte dos teus lábios
o teu shampoo mais caro

tudo isso eu sei
porque me traz o vento

talvez o mesmo que te trouxe
ou que seja outro o lazarento

ainda assim
quando miro esse mar azul
revolto na cova dos teus olhos

fico sem saber de onde vem
esse vento frio impiedoso
que de arrepiar já torna
o meu peito em rumoroso.

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o bonde dos destruídos

o bonde dos destruídos
daqueles desaprendizes
de todos nossos sofridos

sobe a ladeira a mesmos metros
do também lotado e feio
o lento bonde dos incompletos

os primeiros têm como sintomas
os choros e os choques

os segundos são fortes
padecem do mesmo ainda que em comas profundos

os primeiros são as mulheres deixadas
por suas mulheres, homens e filhos

enquanto os segundos são as mulheres
deixadas também por suas mulheres, homens e filhos

os primeiros são os pais desempregados
cheios de culpa e medo
enquanto os segundos também são estes aí dos primeiros

mas que não se engane quem lê
nestes versos incertos
algum descuido do pensamento

estes bondes são parecidos
irmãos gêmeos teria dito
mas ainda não são o mesmo

como os irmãos gêmeos
com sua cara parecida
cada um tem seu segredo

enquanto o segundo segue surdo sobre os trilhos
o primeiro grita de rasgar o coração
da dor que a consciência planta em desespero.

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[det]estado

não conheço a desolação
tampouco o ódio
e a calúnia

desconheço as mentiras
porque estão aí para isso
não sabê-las

a matéria da minha alma
quando é negra
barriguda, pesada

conheço num sono profundo
ou no latejar duma veia
essa que levo na testa

nesse estado tanto faz a moléstia
tudo é entregar-se ao fim
à desgraça de não fazer nada.

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longa e fugaz vida

eu já desejava muito
aquele leite
na gôndola fria
aquele leite
do supermercado

leite longa-vida
mesmo com data de validade
15 de Julho
conservar em local adequado

aquele leite enfeitiçado
levei para casa
com todos os cuidados

– será meu café da manhã
aquele leite
me deixava equivocado

duas horas depois
seco por um gole
foi-se ao chão meu protegido

o famoso leite derramado
que não adiantava mais chorar

sequei os olhos
humilhado no piso
de joelhos inchados

a barba a escorrer
o leite chupado frio
sem culpa, pudor

eu amei, desejei aquele leite
que nunca mais será retornado

a longa-vida do leite
afinal, como a nossa,
já se tinha acabado.

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comei

minhas palavras nasceram
ainda que podres
inescapáveis

mesmo quem as escreve
não floresce
desvale

vai morrer logo e fácil
sem deixar rastro
ou cópia

a carne – já cheia de histórias –
não serve mais de nada
nem de comer.

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pátria amarga

tua mãe perdeu as mãos nesta manhã
o sangue fez raízes na terra batida
virou os olhos, quase perdeu a vida
e ainda não chorou, não mordeu os lábios, não deu um pio

escuta bem, meu filho
essa carta é para dizer que tua mãe perdeu as mãos
foi nesta manhã, enquanto dava de comer à tua família

como sempre fez, não pediu, não mostrou
serviu a todos como se fosse tu, como se fosse eu
a mesa transbordando de apetite, mas de fome ninguém

escuta, meu filho
tua mãe não poderá mais te escrever
tua mãe não vai mais te acariciar a barba, o cabelo
tua mãe não vai mais por o teu menino no berço

tua mãe perdeu as mãos, meu filho
e o sangue jorrou longe no Atlântico e no Pacífico
de tão forte o coração daquela mulher

ela mandou te escrever
mandou dizer que não vai chorar
porque apenas ela poderia enxugar os próprios olhos
de outra maneira não poderia ser

mandou dizer que tem dor no peito
que dói e que não há o que fazer

disse doçuras, por fim
falou bem da casa
dos bichos, de você e de mim

mas tua mãe perdeu as duas mãos nesta manhã
dando de comer, como se lavasse as roupas dum passado encardido
que teima em voltar a sujar nossas peças mais íntimas

tua mãe mandou dizer que sente muito
por essa terra em que você nasceu
pediu perdão por todos esses irmãos teus

tua mãe mandou dizer que te ama
e que você fuja para longe, dentro de si
pois ela já não mais pode ter o coração nas mãos

tua mãe mandou dizer tudo isso
que para mim não passou de um pedido

tua mãe mandou dizer adeus.

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coração-estio

desidratado
murcho
uma salivinha de nada
apenas para dizer um oi
seco

alma carregada
com sacos de areia
finamente
ressentida

teus segredos
mais insanos
íntimos
pichados no horizonte do deserto

miragem tua
olhar vazio

teu oásis de água encanada
despensa e fogão a gás
queima no veneno
do escorpião cor de terra
que nem é tão grande
maior que tua alma

seca essa tua última lágrima
deixa evaporar tua imagem
tua outrora sombra já se foi

respira fundo, apaga a esperança da memória:
hoje o sol não vai embora
nenhuma chuva vem.

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