viagem

pé na estrada
que expressão
mais equivocada

quando a gente sai
vaza no mato, viaja
o pé vai em qualquer lugar
menos na estrada

vai no banco do ônibus
no colo da ruivinha
debaixo dumas coxas
vai dentro do mar

pé na estrada
só se for naquela de nuvem
na poeira que sobe
quando a gente passa
e no pedaço que sangra
quando vai embora

o pé vai mesmo
é no prato da ceferina
na mariana, no christopher
carimbado nas aduanas
nos corações pelo caminho

o pé vai sem visto
sem pedir licença
fantasiando os passos
a estrada nem tem notícia

quando a gente sai
vaza no mato, viaja
todas as expressões
se confessam equivocadas

o coração não bate forte de saudade
o céu não chega nem perto do limite
e o horizonte fica ali, pertinho

quando a gente viaja
a cabeça não fica lá em casa
não fica nem no caminho

a cabeça foge do pescoço
voa feito o vento repentino
e já nos espera malandra
em nosso próximo destino.

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rua sem saída

shiu!

calado
quietinho
não vem querer
dar uma de espertinho

vê se não tá vindo ninguém
tranquilo era só o vento
não é nada foi só um grilo

shiu!

nada não
escutei barulho de portão
desencana
a essa hora
todo mundo tá é dormindo

shiu!

não, agora não foi nada
mas fica quietinho vai
hoje nessa rua nada passa

abre logo essa braguilha

anda, mas anda logo
que esse silêncio todo
o mundo só tá fazendo agora
porque quer ver teu passarinho.

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o monstro do meu armário

Toda vez que desafio o pai, vou deitar morrendo de medo. Minha mãe diz que não é pra eu ter medo dele. Mas eu tenho – e nunca contei pra minha mãe. Minha mãe diz que se eu sinto medo, é porque não é o pai, é outra coisa. Mas eu tenho medo. Sempre tive medo de fantasma. Ets, assombração. Quando vejo um vulto, ou sinto um calafrio, nossa senhora! Eu morro de medo dessas coisas. Até sai sem querer, mas da nossa senhora também vou morrer de medo se aparecer. Não dá pra evitar. O medo é natural. Minha mãe diz que isso não é normal. Me levou benzer. Dona Rita, o nome da benzedeira. Nem é nome assim, esquisito; nem ela era esquisita: uma senhorinha cansada, de roupas normais, mãe de três filhos e gritando para os netos ficarem quietos enquanto ela fazia suas rezas e me benzia. Fiquei pensando lá, enquanto o capim cidreira roçava devagarinho minha cara, se benzer vem de bem-dizer. Eu não sei. Minha mãe também não sabe, fui saber quando cheguei em casa que ela não sabia mesmo. A coisa é que eu fiquei curioso pra saber o que a D. Rita dizia enquanto me benzia… será que me bendizia? Eu não sei. Minha avó não sabe. Meu pai nem saber quer. Eu queria entender aquele “bisubisubisu” que ela dizia. Outra língua? Capricho meu? Eu continuo sem poder dormir. Quer dizer, uma hora eu acabado caindo no sono. Mas eu tenho medo. E se deus aparecer? O anjo da guarda? A nossa senhora? O que é que eu vou fazer? Eu não sei. Minha mãe pensa que me engana, mas ela também não sabe. Meu pai não faz nem questão. Minha avó pensava saber. Eu não sei. Perguntei lá pra tia da escola na aula de religião. Ela não sabe. Todo mundo diz apenas que não preciso temer. Mas eu temo. Tremo até. Não dá pra dormir com a luz apagada. Vai que isso chama o povo do céu. Vai que eles pensam que precisam iluminar o quarto. Eu tenho medo. Eu não quero ver. Eu vou fechar forte os olhos, vou me tapar com a coberta, gritar forte, se ele aparecer. Tem gente que diz que viu e que fica louca. Pelo menos é assim que se diz por aí, que o fulano tá louco, tá vendo coisas. Eu é que não quero ficar louco. Quero empinar pipa, do céu ver só a nuvem – e o que vem mais pra cima. De lá de dentro não, não quero nada. Eu tenho medo. Do diabo todo mundo parece que conhece a cara, mas de deus ninguém fala – a não ser que endoideceu. Eu tenho medo. Esta noite não vou dormir. Vou subir as escadas, dar boa noite pra mãe. Mas vou ficar desperto até o amanhecer. Eu tenho medo. E se ele aparecer? O que é que eu vou fazer? Eu não sei rezar, não sei versículo da bíblia, não sei nada dessas coisas que a gente precisa decorar. A mãe disse que era bom eu aprender. Mas eu não aprendi. Beijei a Aninha na escola. Colei na prova de matemática. Disse aos meus amigos que hóstia tem gosto de superbonder – e tem mesmo! Só não pulei amarelinha, do medo que deu. Eu não sei ainda mentir direito. Eu tento, mas logo sou pego. Por isso eu tenho medo. E se ele aparecer? Eu não vou dormir. Se o quarto se acender sozinho? Não quero dormir, eu tenho medo. O que é que vou dizer? Não sei mentir e, minha mãe diz, para o senhor não existe segredo. O que é que eu vou fazer? Isso é se ele já não sabe, não é mesmo? Hoje eu não vou dormir, eu tenho medo. Eu não quero encontrar com deus, não quero que ele me cuide e me venha ver. Eu sei, eu sei. Mas eu tenho medo. Toda vez que eu desafio deus eu fico morrendo de medo – vai que ele aparece. Minha mãe diz que eu não devia fazer isso, mas o senhor entende meu desespero? Não é que desafio deus por maldade. Desafio de medo. Como é que eu vou mentir? Eu já não sei mentir direito, guardo angustiado esse meu único segredo. E se ele aparecer? Ele me enche de medo. Se ele entra no quarto – como minha mãe disse – e me estende a mão – como minha mãe disse – e diz que não é pra eu ter medo – como minha mãe costuma dizer –, aí é que eu vou é ficar com ainda mais medo. Não vou dormir nunca mais, senão vou ficar pirado de vez, assim como a Enriqueta e o Seu Lêdo lá do asilo. Eu não, não vou dormir, eu tenho medo. Me diz que culpa eu tenho? Eu não consigo, não posso, já tentei de todo o jeito. Não sinto nada, não acredito, não vem de berço. E se ele aparecer? O que vou dizer? Não vou mentir, eu me conheço. Direi que não acredito, que não tem jeito. Mas aí como sei se já enlouqueci de vez? Ou se é só o começo? Me diz, seu padre, me diz porque minha mãe pediu pra eu vir me confessar, pra eu me livrar dos meus pesos. Me ajuda, padre, me ajuda porque esses trâmites que deus tem com vocês eu desconheço!

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desmelodia

teus cabelos de incêndio
apenas teus olhos de mar
compreendem sem desalento

teus desejos secretos
as palavras mais sinceras
janelas para uma terra de ninguém

senti o ar frio dos teus pulmões
desejei teu rosto rosado
nas conversas em idioma desconhecido

hoje não existe mais remédio
a distância fez-nos formiguinhas
em baforentas ruas sem saída

mas a cada lembrança que cintila
numa passagem, num celular
ou nas tuas capas de revista

o verso vira choramingo
– ressentimento –
desabafo feio e sem rima

a triste certeza
que tenho agora nesta calma
é a saudade e o adeus

pois teus cabelos de incêndio
apenas teus olhos de mar
compreendem sem desalento

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um minuto de sua atenção

NO PORTÃO

– senhor, um minuto de sua atenção
– aham
– sou de neves paulista
– aham
– minha sogra caiu da escada
– aham
– agorinha recebi ligação
– aham
– preciso voltar para lá
– aham
– tem um troquinho não?

NA SALA

– quem era?
– gente querendo dinheiro
– aham
– o velho golpe dos trocados
– aham
– pra pagar a condução
– aham
– eu que não caio mais nessa
– aham
– esse povo não tem jeito não

NO TELEFONE

– pai por favor me ajuda
– que foi
– sabe aquele meu amigo
– aham
– do colégio onde eu estudo
– aham
– que sempre vai em casa
– aham
– organizou uma balada
– aham
– pra ajudar na reforma
– aham
– lá da igreja conceição
– aham
– problema é que tô liso
– aham
– tem um troquinho não?

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quedé

voltei colher furada
linha sem rumo
correia sem dente

uma pedra caduca
repouso de bicho
herança do nada.

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fim

deixei essa planta crescer
descuidei de seus galhos
as raízes rachando o piso
suas folhas balançar como brincos

descuido meu, deixei passar
tem quem diga que é capricho
te fotografar assim diante do sol
vê-lo morrer e você ainda dormindo

até os pronomes perderam sentido
tu e você, usted já não faz muito

a situação é que essa planta rompeu o vaso
quebrou o chão
secou a água do prédio
deu reunião com o síndico

mas ainda não floriu
nenhum cheiro de estação
seja ela qual for
e agora aí, plantada e contorcida

escapando dos fios
das cagadas de passarinho
tão destroçada quanto aquele ladrilho
a planta do pé que não andou um centímetro

se despede num grito feio, comprido
rrram-rramramram-rraaaaaam
fica a seiva grudenta, nojenta, na ferramenta
e um buraco desse tamanho no teu chão.

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