datando nome de rua

é sete de setembro
de pessoas indiferentes
um salgado, um café
e um bom dia desconhecido
do outro lado da rua

poderia muito bem ser outubro
novembro, agosto ou dezembro
nem sete precisaria ser
as almas passariam ainda
sonâmbulas na meninice da manhã

a máquina aguarda o toque
rápido dos dedos, o rádio
chhhhh…quem sabe esses
vinte e quatro graus
ou os vinte e quatro anos

certo é que este setembro
faz esquina com avenida
e com uma senhora rua
certo são esses vinte e quatro
graus, ou anos, de calafrios

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retorno autobiográfico de um real personagem ficcional

é, eu consegui
um estado de espírito que comporta o vazio
emptiness
totalmente alheio
a tudo
todos
eu mesmo
sei lá
o que será dessa estória?
bom saber, e eu aqui
bebendo um copo de vintenove
gole barato
fim de noite
sintoma de abstinência
“querido”
passo batido
nem finjo, não ouço
é sério
mas quem diria
voltaria aqui ébrio
que sóbrio já andava muito meta…meta-fuleragem
mas tive fãs
tive
tube
español desde el año pasado
mas hoje nem sei
estou aí
lambendo fronteiras
palpitando em sonhos desgraçados
que teimam em me acordar
e cascudos na cabeça – mereço!
são linhas
corrigidas
voltei 300 vezes
1 vez mais voltarei
mas não hoje
tem que ser feito fora de si
assim, sozinho, drunk, high, em outro lugar
é assim que se faz
faltou planejamento
ideologia
faltou tudo nessa merda
até rima
mas sobra um peso na alma
que hoje já se esvai um pouquinho
de voltar a escrever-escrevendo
que logo
logo logo
sei lá…

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retrato da voz de dentro

ouvi tua voz no bar
e eu que não bebia
parava ainda de fumar
quando o vento devagarinho
jogou as garrafas pela mesa…

ouvi tua voz no bar
um dizer apenas
e mergulhei nos copos
para cair numa noite
que adormeceu sem rima…

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retrato do abandono que protagonizei

na geologia das pedras
do meu caminho
nenhuma anotação faz
sentido.

é como se na geologia
das pedras do meu caminho
houvesse um inesperado
rim.

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Livre Opinião – Ideias em Debate

Hoje o post é – bastante – diferente. Venho convidar vocês para conhecer o blogue Livre Opinião -Ideias em Debate, onde eu publico cerca de quatro vezes por semana. É um blogue sobre cultura e tem debates bastante interessantes, então quem me segue aqui e quiser seguir por lá também, eu ficarei imensamente agradecido! Ah, o blogue também é aberto para colaboradores, então, se houver interesse, basta entrar em contato. Um forte abraço!

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os suicidas não sobem ao céu

um corpo cai cansado no turbilhão
jaz morto? ceifado da nobreza?
é certo que o esmagará a multidão

dias depois veio o laudo da perícia:
saltou por vontade própria duma nuvem
recebeu do chão a brutal carícia

sua identidade ninguém sabia
não tinha documentos nem certidão
nada de certo, ninguém o conhecia

nos relatórios médicos ninguém o descrevia
muitos mesmo até descriam
das origens daquele homem esbugalhado na via

no bolso daquela figura desfigurada
encontraram uma carta, uma despedida
e nela uma escrita nua, desvairada:

“Há muito me entristecia essa vigilância
vagabunda de hipocrisia, de hipocrisia!
dou fim à mim e choro pelos amantes da ganância”

aquilo em mídia e que em público se leria
era uma confusão imensa nas autoridades
aquele alvoroço, aquela queda, o que seria?

nas muitas linhas que passavam aéreas
não fora registrada sequer uma queda
mas só aquela altura traria consequências tão sérias

o advogado, o doutor e o delegado
ficaram desesperados
temia-se findar em desempregado

foi aí que um milagre aconteceu
gritaram em uníssono “Ai meu deus!”
e nada se ouviu, ele não respondeu.

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hoje o poema é de amor

quero uma dança dolorida
de esfolar os pés no chão
ver o suor salgado correr
até um furioso amanhecer

quero nessa noite violenta
que nos arranquem os lençóis
nos vejam como verdades nuas
um segredo de portas abertas

quero não mais que um momento
para que fiquemos sem respirar
e que apenas ouçamos atentos
dois angustiados corações batendo

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