deusdois1000e15

deus é os dias melhores que virão
é o fim da tua preguiça
o amor que não viveste em vão

deus é a paz do mundo
é o bom cheiro da carniça
a salvação daquele teu cheque sem fundo

deus é o teu filho sem fome
é o dia em que teu marido não espanca
o sossego daquilo que te consome

deus é até aquela promessa de ligar amanhã
aquele teleatendimento que funciona
a tua vontade de trabalhar nessa manhã

deus é todas estas coisas maravilhosas
operando na tua tão humana esperança
ele é todas as coisas que sabemos mentirosas.

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meterônimo

é um tempo simples no passo-a-passo
pode ir esquecendo teus tercinados
meu heterônimo vai tirando e tornando a colocar
assim, sempre no quarto compasso.

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pas d’argent pour un roman à Paris

nunca esquecerei Paris
aquela torre maravilhosa
o museu do Código Da Vinci

nunca esquecerei do bonjour
e daquelas lojas caríssimas
na Rue du Faubourg Saint Honoré

nunca esquecerei daquele guia
guardado na estante para sempre
e das passagens da TAM que nunca comprei.

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the mountain is coming home

Essa montanha caminhou
desceu os vales
saltou alguns rios
comprou um carro
abraçou sua mãe – uma única vez

Essa montanha caminhou
cessou o frio
fechou os olhos
e interrompeu o horizonte
para que dormíssemos no meio fio

Essa montanha aqui
ao contrário do que dizem
nunca foi até Maomé

Essa montanha caminhou
por força maior que fé:
a montanha amou

Do Nepal à campainha
no portão da sua casa
apenas para ouvir: – se foi.

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minha rosa roubada de um funeral

entre o início e o começo
entre o céu e o firmamento
entre o concreto e o cimento

entre a rua e a via
entre a casa e o barraco
entre a irmã de minha mãe e minha tia

entre o desrespeito e o desacato
entre a desordem e a bagunça
entre o cale-a-boca e o shiu!

entre o meio e a metade
é que nos perdemos nestas nuances
sinonímias ou descaradas
que nos dizem medianos quando medíocres

entre o fim e a chegada
é que olvidamos o caminho
mas da jornada não me esqueço
vem grafada de nonada bem ali
entre a criança e o berço.

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até um dia

um dia não haverá travesseiro
nem choro, nem água
não vai ter mais aquela trepada debaixo do chuveiro

um dia não vai ter milho
não vai ter trigo
nenhunzinho pão francês

um dia nem frança, nem alemanha, nem padeiro
não haverá europa e oceania
não vai ter copa libertadores, nenhum time brasileiro

um dia não haverá mais páginas
nem árvores em <htmls>, asps, cgis e </phps>
não haverá mais mysql nem yoursql

um dia a função =soma será tão grande
que a célula do excel exibirá apenas jogos da velha
de tão caretas as palavras no papel

mas um dia vou assoprar a vela
fechar as cortinas
tapar as panelas

um dia vou sentar na minha varanda e dizer debochando:
– esse dia chegou, meus amigos, mas eu dormi a tarde inteira!

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verxos

é aqui neste quarto claro
neste íntimo momento
entre eu, você e o mundo
que você me vê todinho nu

cheio de tesão

te chamo já com a bunda de fora
e você com a sua enfiada no sofá
na cadeira, na privada, na cozinha
vendo essa maldita televisão

mas eu ainda aqui, peladinho pra você
me oferecendo feito uma esmola bem dada
com todas as vergonhas de fora
penduradas em vírgulas e exclamações

nem roupas de cima nem de baixo
apenas as tripas de dentro pra fora
sussurrando: venha e me coma devagar
assim, uma palavra de cada vez.

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