estrelas cadentes

nós somos a história
e também o amanhã
do que fazemos hoje

nossas escolhas chinfrins
têm a pachorra de nos fazer
qualquer coisa que chamamos de únicos

beijar três ou quatro bocas
caminhar pela rua ou pela calçada
salvar o planeta ou para uma noitada

tanto faz a maldade
ou a beleza da doçura
ao universo nada interessa

uma duas três quatro mil vidas
numa só onda
vai o mundo e leva, às vezes em nome de deus

pegue uma caneta e escreva um poema
uma sentença, uma fórmula matemática
assine um cheque, uma carta de suicídio

restará a indiferença, nossa maior condena
impensada até mesmo pelos deuses mais cruéis
de nossas veementimente acreditadas ficções

escolha uma estrela no céu
ainda que uma quase sem brilho
também será esquecida, nossa irmã em matéria

estamos presos para sempre
mesmo aqueles de pensamento livre
na jaula do tempo, o presente camaleônico

de nada adiantam as lágrimas
os sussurros
as mentiras dos amantes

a memória é coisa humana
se nós a criamos ou se ela nos criou, não importa:
ela nos esquecerá – a todos.

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búsqueda

hay una parte de mí
que desconoce el portugués
desconoce todas las señales
que canta y piensa así
en castellano
para recordar el río nomas
y poder dormir

hay una parte de mí
que desconoce las fronteras
y todavía llora
cuando recuerda
la frontera que pusiste en tu corazón
una pared tan alta
que nunca la ha podido cruzar

hay una parte de mí
que dice aguyje nomas
y que pone en llamas el corazón
con el sabor de los días con los amigos
los abrazos, las tazas de vino
la vida al lado del río, de River
alabanza a San José, el único santo que ha conocido

hay una parte de mí
que se quedó por allá
en alguna parte de nuestra América
y su otra parte hermana
que sigue viviendo en mí
me dice por la noche, despacito
– Ándale, agarra tu equipaje y vas a vivir completo!

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a sombra

sombra
nada a ver com escuridão
é apenas estar ali
ainda que em vão

é a história que os outros dizem
sobre aquele que tapa o sol
e que não dá um pio

esta é a sombra
e sempre será
a sombra das mágoas

totalmente entendível
o desegredar impressões
essa coisa que guardamos
tanto tempo no peito

a sombra é o inchaço
dos olhos

a sombra é o não feito
enquanto a luz matava
um corpo à sua frente

mas é na sombra que está
o mistério de tudo
e a fonte das fábulas

as bocas contarão minúcias
estórias mesmo

na sombra está o verdadeiro
aproveitando a preguiça
o sossego.

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recreação

todos os entorpecentes
os dias de festa
as namoradinhas curtas
também as de longa data

são ponteiros de relógio

tique-taques infinitos
debochando da vida que passa
essa nossa que vai morrendo
nas cordas em nossos pescoços
sem brutos galhos que aguentem

nossos entretenimentos
marcam os dias na pele a ferro quente
paredes antigas de uma cela:

somos brinquedos de deus
dados a ele pelo diabo
num dia sem assunto
tedioso
enquanto brincavam de encaixar as peças do universo.

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a pegar vueltas

que saudade
do mundo
daquele caco de vidro
que partiu meu coração

em mil

lembranças, crepúsculos
visões borradas
na condensação do vidro
ou das vistas?

o horizonte

aperta meu peito com uma força
sem fim

saudade dos amores
que me deixaram
sabores

que o vento perdeu

cruzando fronteiras
no meu sono
sonho

que faz uma falta desse tamanho
colocar os passos

um
após
o outro

saudade do mundo
que tinha debaixo de meus pés
e perdi porque deixei de caminhar

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adieu

mãos levantadas
abanando o vento
é o dia do adeus
do choro das mães
e de alguns pais

é a ocasião da desculpa
de pedir desculpas
pelas coisas sem perdão

os crimes não cometidos
excessivos prazeres
defeitos que não têm prisão

adeus, adeus, adeus
aos últimos fios de cabelo
em que havia me agarrado
pois soltaram-se por aí

fui tragado pela estrada
há muitos anos infinitos
de teimosia é que fiquei aqui
ainda que sem hoje e sem agora:
chegou a hora de partir.

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[des]posicionamento [a]po[ca]lí[p]tico

há muito que me afirmo canhoto
mas se você me perguntar
eu digo que corro
fecho a porta
no canto
escuro

digo que fico de um lado
depois fico de outro
ou que sigo assim
sem lugar

mas, meus amigos, são os tempos
e nestes tempos a gente cisma
engraxa e lustra sapatos
diz mentiras apenas
para sair vivo

no fim das contas o que interessa
é que depois de toda correria
tanta briga, tanta pressa
o peito que palpita
é o mesmíssimo
que terminará
de canhota
e ponto
final.

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