tenho problemas de memória

nasci
fato consumado
e daí pra frente
fui juntando sonhos
mas eis que o HD encheu
já não dava mais para sonhar
quer dizer
sonhar dava
só não guardava
de vez em quanto excluía um
salvava outro
mas sei lá,
parece que só pra viver
digo, só pra funcionar
já lota uma memória danada
fui excluindo um a um
pra ver se a máquina não trava
guardado tinha um sonho só
o de viver tranquilo, na paz
mas esse eu também deletei de vez
ontem de tardinha, às 18h16.

Ainda a mancha do Veríssimo, o filho

a hora mais escura do dia
chegará com o sol pela manhã

o ontem, antes tão distante
chega a cegar o peito
que bate, estremece, agonizante

quando vem a hora não é coincidência
o lobo enxerga a presa
e quem não caça vive a sentença

de dar ao punhal as costas
o senso comum, nossa inseparável decadência.

A memória da ditadura em “A Mancha”, de Luis Fernando Verissimo

novíssimo testamento [open beta]

– lá se vai mais um dia ruim
alguém disse de uma varanda gourmet

tanto faz se com desdém ou esperança
a história não se repete,
mas também não poupa ninguém

nesses tempos de multidão
amemos ao próximo
mas cada um que cuide do seu

deus paira tão alto
que é rarefeito
não dá pra todo mundo
você que passe sem.

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monólouco

– são caminhos
– mas há quem discorde
– concordo
– então aceite
– mesmo assim é um disparate
– sem dúvida
– quem mais deixaste?
– ninguém, apenas fiquei
– e essa multidão?
– já não conheço ninguém
– ouvi que ontem sumiu mais alguém
– mas eu sei lá o que vou dizer
– a quem?
– a mim
– e a quem mais interessa?
– ninguém.

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